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terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O ANARQUISMO NO BRASIL ESTÁ MORRENDO (Gafa, Fábio Gafa Paro Suguiyama)

     O anarquismo no Brasil esta morrendo... Existem algumas produtivas. Mas a maioria de nós se titulam anarco individualistas, egoístas... Enquanto no mundo todo a politica anarquista é de enfrentamento, aqui só ficamos presos aos teclados! Sem propaganda junto ao povo, através de nossa ação direta, nosso exemplo, como iremos conseguir mais indivíduos que almejam a liberdade? Insisto nisso, temos que sair as ruas, propagandear, agir, dar o exemplo de ética, de moral, de assertividade, propagar a autogestão!!
     Em quanto isso, nós ficamos presos aos teclados e ação nenhuma na rua!
     Antigamente não era assim! Nós éramos temidos, discursávamos nas praças... Este local foi tomado pelos evangélicos e, com todo o nosso conhecimento, oratória, crença dogmática aos nossos ideais são poucos de nós que se arriscam a tomar nossos espaços! Afinal de contas, somos anarquistas ou não?
     O mundo virtual é bastante confortável! Temos nossos grupos fechados onde podemos teclar/falar sobre os teóricos anarquistas... Mas isso companheiros e companheiras, é chover no molhado!!!
     Toda estas teorias que postamos, já conhecemos!!! O POVO é que não conhece!!! Devemos levar a mensagem, através de nossa ética, nossa moral, nossa assertividade, nosso exemplo de vida!!!
     Quanto mais detentores do poder se forem, existem dois fatores, o dos que acreditam neles, e o dos que não acreditam... Penso eu, que toda a forma de poder, legislativo, executivo ou judiciário, estão fadados ou a perpetuar o poder, a corrupção, o controle do povo, ou tendem a ser eliminados por uma revolução popular... Como a segunda, aqui em nosso país é mais complexa, foram anos de ditadura para amaciar o povo, somente nós, se propagandearmos com mais afinco nossos ideais, retirando os evangélicos das praças, que eram nosso lugar de divulgação e, começarmos, tirando nossas bundas das cadeiras e mãos de frente dos computadores e indo as ruas, nossos locais de trabalho, nossos lugares de estudo ( escolas, faculdades, universidades...), sindicatos, cooperativas, entidades sociais, e lutar através da ação direta e propaganda. Conseguiremos um povo que almeje a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a assertividade, nossa ética, nossa moral!!! Dai podemos reclamar por uma revolução!!!
     Não somos os revolucionários de vanguarda, longe de nós, somos propagandistas... O povo é que vai fazer a revolução e dar suas diretrizes... Como já disse: Nós somos o presente... Nem o futuro, nem o passado!!! Somos aqueles que devem agir agora!!! Sem palavras tolas e sem iniquidade!!! Somos aqueles que serão o passado! Mas se conseguirmos convencer no presente, conquistaremos o futuro!!!
     Bem... Vamos lá... Neste tempo de intrigas politicas institucionalizadas, nós como anarquistas devemos manter distancia deste imbróglio! Pertencemos a um grupo politico fora deste circulo entre a dita esquerda e a dita direita! Se você publica um post de um politico, pode estar pensando que esta fazendo um favor a sociedade, mas esta, sem querer fazendo propaganda ao adversário dele. Se você cita um partido AB ou C, vai fazer politica para o ABCD!!!! Nós como anarquistas devemos manter distancia da politica institucional, que luta pelo poder. Não somos como muitos dizem, de extrema esquerda! Somos indivíduos livres e descomprometidos com o poder do Estado e suas picuinhas!!!
     Devemos nos ater a nossa propaganda, nosso exemplo e nossa ação direta! Tudo que vai contra eles e, não beneficia-los! Não estamos em busca de cargos ou qualquer que seja o beneficio por fazer campanha por este ou aquele, deixemos isto para as corporações! E, somos contra as corporações que sustentam o estado, a mídia, o judiciário, o legislativo, e o executivo, protegidas por proletários de pequenos poderes como a policia e o exercito.
     Volto a dizer: Não somos vanguarda, como querem ser os partidos, somos propagandistas de nossa causa, de nossa filosofia, de nossa ética, de nossa assertividade, de nossa moral, de nosso exemplo de vida!!! Fim de papo!!!
Gafa
Fábio Gafa Paro Suguiyama

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A POSIÇÃO DO PROBLEMA POLÍTICO (PROUDHON)

     Como escolher... entre a propriedade e a comunidade, o federalismo e a centralização, o governo direto do povo e a ditadura, o sufrágio universal e o direito divino? Questões tanto mais difíceis, quando nos faltam exemplos de legisladores e de sociedade que tomaram como regra um ou outro destes princípios, e quando todos os contrários encontram, igualmente, a sua justificação na história.
     Tomem, para lei dominante da República, seja a propriedade, como Romanos, ou comunidade, como Licurgo, ou a centralização, como Richelieu, ou o sufrágio universal, como Rousseau; qualquer que seja o princípio que escolherem, desde que no vosso pensamento ele tenha prioridade sobre todos os outros, o vosso sistema está errado. Há uma tendência fatal para a absorção, para a depuração, para a exclusão, para o imobilismo, em direção à ruína. Não há uma revolução na humanidade que não possa ser explicada, com facilidade, por esse meio...
     Tal é, pois... A regra da nossa conduta e dos nossos Juízos: toda a doutrina que aspira secretamente à prepotência e à imutabilidade... que se lisonjeia por dar a última fórmula da liberdade e da razão, que... esconde, nas pregas da sua dialética, a exclusão e a intolerância... é mentirosa e funesta...
     Se, pelo contrário, admitirem, em princípio, que toda a realização, na sociedade e na natureza, resulta da combinação de elementos opostos e do seu movimento, a vossa conduta está bem traçada... : Toda posição tem por fim... Procurar uma combinação mais íntima... é um processo... ( Philos. du Prog., Cap. I.)

Extraído:
Livro: Nova Sociedade
Autor: Proudhon
Editora: Rés colecção substância
Páginas: 117 à 118

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A DINASTIA VERMELHA

     A tradição cometida por Lenine, contra os partidos e os trabalhadores, regada com sangue generoso do proletariado russo, em nome de quem sempre falou, sem nunca ter sido proletário, fez surgir diversas rebeliões, de 1917 a 1922, nalgumas regiões da Rússia. Umas, por ódio de raças; outras, para restabelecer a DEMOCRACIA,; na Ucrânia, para implantar as coletividades agrárias livres.
     Falando num "soviet" de bairro em Petrogrado, Gregori Zinoviv, exigiu o extermínio de 10 milhões de pessoas, dizendo: "Devemos ganhar para o nosso lado, 90 milhões dos 100 milhões de habitantes da Rússia. Quanto ao resto...tem que aniquilado".
     Nesse cálculos, ele próprio não se incluía, mais acabou, sendo também fuzilado.
     Dora Kaplan — expressão viva dos traídos e desesperados com esta onda de sangue, atenta contra a vida de Lenine.
     Em represália, Lenine manda matar 500 presos de Kronstadt.
     O ditador russo, tão sanguinário quanto Hitler, já havia semeado o terror, não contra a burguesia vê adeptos da monarquia, mas contra os socialistas revolucionários, os anarquistas, os anarco-sindicalistas e democratas da esquerda — idealistas capazes de lhe fazer sombra, servindo-se até de burgueses e monarquistas, para matá-los.
     Estava-se no 1.° de Março de 1921, e 15.000 marinheiros e trabalhadores, os mesmos que derrubaram Czar e conduziram o navio "AURORA", provocando a queda ao governo de Kerensky, reúnem-se em KRONSTADT — ilha perto de Petrogrado e fortaleza naval, condenam o terror vermelho e proclamam Lenine traidor da Revolução, o ditador, que nada fizera para derrubar o Czar, há muito vivendo de expediente fora da Rússia e que agora, afogava o proletariado em sangue!!!
     Ali nasceu o comité dos verdadeiros revolucionários russos, composto por Petritchevko, 1.° escrevente do Petropavlovsk; Yakovenko, telefonista do distrito de Kronstadt; Ossossoff, mecânico do SEBASTOPOL; Arhipoff, contra-mestre mecânico do PETROPAVLOVSK; Kupoloff, primeiro ajudante médico; Velchinin, marinheiro do SEBASTOPOL; Tonkin, operário eletricista; Romanenko, guarda artilheiro de reparação de navios; Orechin, empregado da 3.ª escola técnica; Valk, operário carpinteiro; Pavloff, operário em construção de minas marinhas; Baikoff, servente; Kilgast, timoneiro. (De "INVESTIA", n.° 10, de 12-3-1921).
     Para justificar a destruição dos 15 mil trabalhadores e marinheiros contra-revolucionários, Lenine e seu alto comando, dirigido por Trotsky, põem a correr notícias como "Os marinheiros são comandados por padres, guardas brancos e generais monárquicos!" — A calúnia correu salta até no exterior.
     E quem foi o vencedor da residência de Kronstadt? Foram os bolchevistas?
     Nada disso... Trotsky e Lenine, contaram com os serviços do general Mikhail Tukhachevsky, czarista e feroz reacionário, em troca do perdão.
     Comandando 60.000 homens escolhidos e forças de TCHEKA, o citado general, cercou a COMUNA e a luta foi cruel. Tiveram de tomar casa por casa.
     No dia 17 de Março, o general czarista Tukhachevsky, anunciava a Trotsky e a Lenine, que a tarefa terminará com 18.000 trabalhadores e marinheiros mortos!!!
     Lenine e Trotsky saíram vitoriosos, ao derrotarem o proletariado russo, que, vende-se traído nos seus objetivos, levantava-se em defesa dos seus direitos.
     Os proletários foram esmagados, fuzilados friamente, pelo general czarista. Miknail Tukhachevsky — assassino profissional, contratado em troca de sua vida, que lhe fora poupada, porém, não escapou também ao fuzilamento mais tarde, por ordem de Estaline, para não sobrar testemunha de vista.

Extraído:
Livro: Deus Vermelho
Autor: Edgar Rodrigues
Editora: Porto
Página: 83 á 85
Ano: 1978

terça-feira, 28 de novembro de 2017

A JUSTIÇA, PRINCÍPIO REVOLUCIONÁRIO ( PROUDHON)

     O tempo das raças iniciadora passou. O movimento não renascerá na Europa, nem do Oriente, nem do Ocidente...
     Ele não pode vir senão de uma propaganda cosmopolita, defendido. Por todos os homens... sem distinção, nem raça, nem língua.
     Qual será a sua bandeira? Só pode ser uma: a Revolução, a Filosofia, a Justiça. Revolução é o nome francês... filosofia é o nome germânico; que justiça se torne o nome cosmopolita...
     Qual é o princípio fundamental, orgânico, regulador, soberano das sociedades? É a Religião, o Ideal, o Interesse? É o Amor, a Força, a Necessidade ou a Higiene? Há sistemas e escolas para todas estás afirmações.
     Este princípio, para mim, é a Justiça.
     —É a essência da Humanidade.
     Que tem sido ela, desde o princípio do mundo?
     —Quase nada.
     Que deve ser ela?
     —Tudo.
     (De la Just. dans la Rév. Phil. Popular.)
     Sendo a igualdade a lei da natureza, do mesmo modo que a lei da justiça, e sendo as promessas de uma e de outra idênticas, o problema, para o economista e para o homem de Estado, já não é saber se a economia será sacrificada à justiça ou  a justiça sacrificada à economia; ele consiste em descobrir qual será o melhor partido a tirar das forças físicas, intelectuais, econômicas, que o génio incessantemente descobre, a fim de restabelecer o equilíbrio social, perturbado pelas particularidades de clima, de geração, de educação, de doenças, e por todos os acidentes de força maior...
     É uma tarefa bem delicada conciliar o respeito devido às pessoas com as necessidades orgânicas da produção; respeitar a igualdade, sem pôr em perigo a liberdade ou, pelo menos, sem impor à liberdade outros entraves que não sejam o Direito. Tais problemas requerem um ciência à parte, objetiva e subjetiva ao mesmo tempo, metade fatalidade e metade liberdade. (De lá Justice dans la Rév., Les Biens.)

Extraído:
Livro: A Nova sociedade
Autor: Proudhon
Editora: RÉS colecção substância
Página: 14 á 15

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

A JUSTIÇA, LEI DA FILOSOFIA (Proudhon)

     A lei da minha filosofia... Procurá-la-ei... Numa relação entre mim e um outro eu que não seja eu...
     Eu que qualquer homem, meu semelhante, é um eu; penso igualmente que os que os animais... São também eus, de uma dignidade inferior, é certo, mas criados no mesmo plano... Como já não faço uma demarcação nítida entre o animal e a planta, entre esta e o mineral, pergunto a mim mesmo se os seres inorgânicos não são ainda... Membros dum eu de que ignoro a vida é as operações.
     Sendo pois o ser classificado em eu e não-eu, que posso eu fazer de melhor, nesta ambiguidade antológica, senão tomar para o ponto de partida da minha filosofia a relação, não de mim a mim mesmo... mas de mim a um outro eu, o que já não constitui uma dualidade metafísica... Mas uma dualidade real, viva...
     Agindo assim... tenho a vantagem,  descendo da humanidade para as coisas, de nunca perder de vista o seu legítimo conjunto... Enfim, presume-se racionalmente que a lei que rege os indivíduos entre si rege também os objetos, pois que, sem isso, haveria contradição entre a natureza e a Humanidade.
     Tomemos pois por certo que... Este princípio deve ser, ao mesmo tempo, subjetivo e objetivo, formal e real, inteligível e sensível, deve indicar uma ligação do eu ao não eu, deve ser dualista como a própria observação filosófica...
     Qual é então essa ideia, ao mesmo tempo objetiva e subjetiva, real e formal, de natureza e de humanidade, de especulação e de sentimento, de lógica e de arte, de política e de economia; inteligência prática e inteligência pura, que rege, ao mesmo tempo, o mundo da criação e o mundo da filosofia; sobre a qual são construídos um e outro; ideia, enfim, que dualista pela sua fórmula, exclui entretanto qualquer anterioridade e qualquer superioridade e abarca, na sua síntese, o real e o ideal? É a ideia de justiça...

Extraído:
Livro: A Nova sociedade
Autor: Proudhon
Editora: RÉS colecção substância
Página: 168 á 169

A JUSTIÇA NA HUMANIDADE : DEFINIÇÃO (Proudhon)

     Segundo as manifestações da consciência universal e da ciência... Está justiça deve ser  em nós qualquer coisa de perderável e de real — indicando uma relação de conexidade e de solidariedade... pelo menos dois termos, duas pessoas unidas pelo respeito comum da sua natureza, diferentes e rivais para todo o resto...
     O homem, em virtude da razão de que é dotado, tem a faculdade de sentir a sua dignidade na pessoa do seu semelhante como na sua própria pessoa, de se afirmar ao mesmo tempo como indivíduo e como espécie.
     A Justiça é o produto desta faculdade: é o respeito, espontaneamente sentido e reciprocamente garantido, da dignidade humana, em qualquer pessoa e em qualquer circunstância em que ela se encontre comprometida, e em qualquer risco a que nos expõe a sua defesa...
     Estar pronto, em qualquer circunstância, a tomar com energia — em caso de necessidade, contra si próprio – a defesa dessa dignidade, eis a Justiça.
     Isso equivale a dizer que, pela Justiça, cada um de nós se sente ao mesmo tempo como pessoa e coletividade, indivíduo e família, cidadão é povo, homem é humanidade...
     Da definição de Justiça deduz-se a do direito e do dever. Sentir e afirmar a dignidade humana, primeiro em tudo o que se relaciona com nós próprios, depois na pessoa do próximo, e isto sem reconhecimento de egoísmo como sem qualquer consideração de divindade ou comunidade: eis o Direito.
     O direito é, para cada um, a faculdade de exigir dos outros o respeito da dignidade humana na sua pessoa: o dever, a obrigação para cada um de respeitar está dignidade noutrem.
     No fundo, direito é dever são termos idênticos, visto que são sempre a expressão do respeito, exigível ou devido: exigível, porque ele é devido; devido, porque ele é exigível; só diferem, no sujeito: eu ou tu, em quem a dignidade está comprometida. (Justice, Les Personnes.)
     Sociedade, Justiça, Igualdade são três termos equivalentes, três expressões que se traduzem. (1.er mémoire, capital.V.)
     A Justiça é a fórmula da sociedade. (Capac. Pol.,liv. II, cap. V.)
     A Justiça é, pois, uma faculdade da alma, a primeira de todas, a que constitui o ser social. Mas ela é mais do que uma faculdade: ela é uma ideia, implica uma relação, uma equação. Como faculdade, é suscetível do desenvolvimento: é este desenvolvimento que constitui a educação da humanidade. Como equação, não apresenta nada de antinómico... e como toda lei... ela é altamente inteligível. É através dela que os factos da vida social, indeterminados pela sua natureza e contraditórios, se tornam susceptíveis de definição e de ordem. ( Justice, Les Personnes.)

Extraído:

Livro: A Nova sociedade
Autor: Proudhon
Editora: Rés
Página: 173 á 174

segunda-feira, 26 de junho de 2017

REALISMO MORAL E REALISMO SOCIAL ( Parte 1) Proudhon

1.- MORAL E REALISMO MORAL
     Expliquei na teoria, que tentei apresentar, do progresso, como o progresso tinha o seu princípio na justiça, como na justiça como em qualquer outro desenvolvimento politico, econômico, literário, filosófico, se tornaria subversivo e dissolvente, e ainda, como ideal nos fôra dado para nos levar a justiça; mais expliquei como, se este mesmo ideal, em vez de servir auxiliar e de instrumento de direito, fosse, ele próprio, tomado como regra e objetivo da vida, haveria imediatamente, para a sociedade, decadência e morte. Numa palavra: à justiça, subordinei o ideal. (Pornocratie, cap. V)
     A moral é o conjunto das normas que têm como objetivo a perseverança na justiça. É noutros termos, o sistema de justificação, a arte de o homem se tornar santo e puro pelas obras, ou seja, ainda é sempre: o progresso ... (Philos. du Progrês, 1.º estudo.)
     Não são os homens que governam as sociedades, mas os princípios; na falta de princípios, são as situações.
     A França perdeu os seus costumes.
     Pelo cepticismo, o atrativo puramente moral do casamento, da geração, da família, o atrativo do trabalho e da cidade, uma vez perdidos, dá-se a dissolução do ser social... Ciência e consciência da justiça... eis o que falta.

A. CIÊNCIA E CONSCIÊNCIA DA JUSTIÇA
     Para formar uma família, para que o homem e a mulher encontre alegria e a calma a que aspiram, sem quais aproximados apenas pelo desejo, eles  nunca estarão sempre incompletamente unidos, é precisa uma fé conjugal, entendendo eu por isso uma ideia da sua dignidade mútua...
     Do mesmo modo para formar uma sociedade, para dar aos interesses das pessoas e das famílias a segurança - que é a sua primeira necessidade, sem a qual o trabalho não se aceita, a troca dos produtos e dos valores se torna uma burla, a riqueza uma cilada para quem a possui - é preciso aquilo que eu chamaria uma fé jurídica...
     Do mesmo modo ainda, para formar um Estado, para conferir ao poder adesão e estabilidade, é precisa um fé política, sem a qual os cidadões, entregues às puras atrações do individualismo, não sabiam, seja o que for fizessem, ser outra coisa que não fosse um agregado de exigências incoerentes e repulsivas... É pois preciso que a Justiça, nome pelo qual designamos está parte da moral que caracteriza o indivíduo em sociedade, para se tornar eficaz, seja mais uma ideia, é preciso que seja ao mesmo tempo uma realidade. É preciso que ela aja não só como noção da razão, relação econômica, fórmula de ordem, mas ainda como força da alma, forma dá vontade, energia interior, instinto social, análogo para o homem aquele instinto comunista que observamos nas abelhas. Há razões para se pensar que, se a Justiça permaneceu até hoje impotente, é porque, como faculdade, força motriz, a menosprezamos completamente, porque desprezamos a sua cultura, porque ela não caminhou, no seu desenvolvimento, ao passo da inteligência; enfim, porque a tomamos por uma fantasia da nossa imaginação ou impressão misteriosa duma vontade estranha. É preciso pois que ela apareça finalmente como o princípio, o meio e o fim, a explicação e a sanção do nosso destino. (Justice, Philips. Popular.)
B. A moral, realidade social

     Imanência e realidade da justiça na humanidade, tal é o grande ensinamento... A moral... Expressão da liberdade e da dignidade humana, existe por si própria; ela não depende de nenhum princípio; domina toda a doutrina, toda a teoria...
     É no comando da vossas ideias e até a prova dá vossa certeza...
     A justiça e em vós ao mesmo tempo realidade é pensamento soberano... ( Lá Guerre et la Paix, concl. geral.)
     A moral-e a sua correlativa, a estética — é coisa Sui generis: não é um produto do pensamento puro ou da razão, como a teologia... É uma revelação que a sociedade, o coletivo, faz ao homem, ao indivíduo. — Tornar-se Impossível deduzir a moral, quer da higiene, quer da economia, quer da metafísica ou teodiceia, como o fizeram, sucessivamente, os materialistas, os utilitaristas, os cristãos dogmáticos, tais como Bossuet, etc. A moral resulta doutra coisa. Esta outra coisa, a que uns chamam consciência, outros razão prática, etc., é, para mim, a essência social, o ser coletivo que nos contém e que, pela sua influência, pelas suas revelações completa a constituição da nossa alma...
     Não comentam essa grande imoralidade de fazer da moral uma coisa noológica. Seriam forçados, mais tarde ou mais cedo, a reconhecer que essa pretensa moral não tem, nem o princípio, nem o valor, nem o objetivo, nem função. (Lettre à Cournot, 31 de Outubro de 1853.)

C. Estética e moral social

     
Aquilo que a moral revela à consciência sob a forma de normas, a estética, tem por objetivo mostrá-la aos sentidos sob a forma de imagens... São dois aspectos da nossa educação, ao mesmo tempo, sensíveis e intelectuais, que se tocam na consciência e que só diferem no órgão ou na  faculdade que lhes serve de veículo. Aperfeiçoar-se pela justiça... desenvolvendo-a na sua verdade integra, tal é o objetivo indicado ao homem pela moral. Aperfeiçoar-se pela Arte, depurando incessantemente, à semelhança da nossa alma, as formas que nos rodeiam, tal é o objetictivo da estética. (Philos. du Prog., 2º lettre.)
     O que é arte e qual é o seu objetivo social?
     Uma representação idealista da natureza e de nós próprios, com fim ao aperfeiçoamento físico e moral  da nossa espécie...(Du Principe de I'Art, cap. XII.)
     O objetivo da Arte é ensinar-nos a juntar o agradavel ao util, em todas as coisas da nossa existência, e através disso, contribuir para a nossa dignidade.(Du Principe de I'Art, cap. XXIII.)
     A Arte, isto é, a procura do belo, a perfeição do verdadeiro no homem, na mulher e nos filhos; nas ideias, discursos, ações; nos produtos: tal é a ultima evolução do trabalhador... A estética e, acima da estética, a moral: eis a pedra angular do edifício economico. (Contr. Êcon., Cap XIII.)
     A Arte, como a literatura, é a expressão da sociedade, e quando não existe o seu aperfeiçoamento, existe a sua ruína. (Pr. Art., cap. X.) A Arte deve participar no movimento da sociedade, provoca-lo e seguilo. Foi por ter menosprezado este destino da Arte, por ter reduzido somente a expressão deuma realidade quimérica, que a Grécia perdeu a compensação das coisas e o captro das ideias. (Philos. du Prog., 2ª lettre.)
     É possível uma estética, uma teoria da arte?
     -A Arte é a própria liberdade, restabelecendo à sua vontade, e em vertude da sua própria glória, a fenomenalidade das coisas, executando variações sobre o tema concreto da natureza.
     -A Arte, assim como a liberdade, tem pois como materia o homem e as coisas; como objetivo, reproduzi-lo ultrapassando-os; como fim ultimo, a justiça.
     -Para decidir da beleza das coisas - noutros termos: para as idealizar - é preciso conhecer as relações entre as coisas... o ideal é dado pelo real; ele tem a sua base, a sua causa, a sua força de desenvolvimento real, no real.
     -A Arte é solidária com a ciência e a justiça: eleva-se com elas e declina ao mesmo tempo que elas. (Justice, Prog.et Décadence.)

D. Sanção moral e solidariedade social

     Em virtude da solidariedade moral que une os homens, é raro que um acto de prevaricação seja completamente isolado e que o prevaricador não tenha por cúmplice, direto ao indireto, a sociedade e as suas instituições. Somos todos, uns mais outros menos, culpados uns para com os outros, e o que diz Job não é verdadeiro: pecador perante Deus, estou inocente perante os homens. Nesta comunidade consciência, sendo a Justiça recíproca, é-o também a sanção; a reparação deve comportar-se do mesmo modo. Quais são as causas, os pretextos, se tal quisermos, que arrastaram o acusado? que injustiça, que tolerância, que favor o provocou? que mau exemplo lhe foi dado? que omissão, que contradição do legislador atormentou a sua alma? De que ofensas,  - seja parte da sociedade, seja da parte dos particulares - Se lamenta ele? quais as vantagens, dependentes da vontade pública, de que não goza?... Eis o que o Juiz de instrução deve investigar, com tanto cuidado como as próprias circunstâncias do crime ou delito...(Justice, Sanction morale.)

Extraído:

Livro: A Nova Sociedade
Autor: Proudhon
Editora: Rés (colecção Substância)
Paginas: 257 á 262