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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Kropotkin Ordem vs Desordem

     A ordem, hoje, — o que eles entendem por ordem —, são os nove décimos da humanidade, que trabalham para proporcionar luxo, gozos, satisfação das paixões mais execráveis, a um punhado de ociosos.
     A ordem é a privação destes nove décimos de tudo o que é a condição necessária a uma vida higiênica, a um desenvolvimento racional das qualidades intelectuais. Reduzir nove decimo da humanidade ao estado de besta de carga, vivendo o dia-a-dia, sem nunca ousar a pensar nos prazeres proporcionados ao homem pelo estudo das ciências, pela criação artística — eis a ordem!
     A ordem é a miséria, a fome, tornadas estado normal da sociedade. É o campônio irlandês morrendo de fome; é o camponês de um terço da Rússia morrendo de difteria, tifo, fome, em conseqüência da escassez de alimentos, no meio das montanhas de trigo que partem para o estrangeiro. É o povo da Itália, levado a abandonar seu campo luxuriante para vagar pela Europa, procurando um túnel qualquer a ser perfurado, onde correrá o risco de ser esmagado depois de ter subsistido alguns meses mais. É a terra retirada do camponês pela criação de gado, que servirá para alimentar os ricos; é a terra deixada inculta, ao invés de ser restituída àquele deixada inculta, ao invés de ser restituída àquele que não pede outra coisa senão para cultivar-la.
     A ordem é a mulher que se vende para alimentar seus filhos; é a criança reduzida a estar fechada em uma fabrica ou morrer de inanição; é o operário reduzido ao estado de máquina. É o fantasma do operário insurreto às portas dos governantes.
     A ordem é uma minoria infama, educada nas cátedras governamentais, que se impõe por esta razão à maioria, e que prepara seus filhos para ocupar mais tarde as mesmas funções, a fim de manter os mesmo privilégios, pela astúcia, pela corrupção, pela força, pelo massacre.
     A ordem é a guerra contínua de homem a homem, de profissão a profissão, de classe, de nação a nação. É o canhão que não cessa de ribombar na Europa, é a devastação dos campos, o sacrifício de gerações inteiras no campo de batalhas, a destruição, em um ano, das riquezas acumuladas por séculos de árduo trabalho.
     A ordem é a servidão, o acorrentamento, do pensamento, o aviltamento da raça humana, mantida pelo ferro e pelo açoite. É a morte repentina pelo grisu, a morte lenta pelo soterramento de centenas de mineiros esmigalhados ou enterrados todos os anos pela cupidez dos patrões, e metralhados, perseguidos à baionetas, assim que ousem reclamar.
     A ordem, enfim, é o banho de sangue da Comuna de Paris. É a morte de trinta mil homens, mulheres e crianças, despedaçados pelos abuses, metralhados, enterrados na cal viva sob as ruas de Paris. É o destino da juventude russa, emparedada nas prisões, enterrada na nave da Sibéria, da qual os melhores, os mais puros, os mais  devotados representantes, morrem pela corda do carrasco.
     Eis a ordem!

     E a desordem — o que eles chamam de desordem?
     É a insurreição do povo contra esta ordem ignóbil, quebrando seus grilhões, destruindo os obstáculos e caminhando para um futuro melhor. É o que a humanidade tem de mais glorioso em sua historia.
      É a revolta do pensamento às vésperas das revoluções; é a derrubada das hipóteses sancionadas pela imobilidade dos seculos precedentes; é a eclosão de todo o fluxo de novas idéias, de invenções audaciosas; é a solução fos problemas da ciência.
     A desordem é a abolição da escravidão antiga, é a insurreição das comunas, a abolição da servidão feudal, as tentativas de abolição da servidão econômica.
     A desordem é a insurreição dos camponeses insurgidos contra os sacerdotes e senhores, incendiando os castelos para dar lugar as choupanas, saindo de seus esconderijos para ocupar seus lugar ao sol. É a França abolindo a realeza e dando um golpe mortal na servidão em toda a Europa Ocidental.
     A desordem é 1848 fazendo os reis tremer em e proclamando o direito ao trabalho. É o povo de Paris, que combate por uma idéia que, ainda que sucumbindo sucumbindo sob os massacres, lega à humanidade a ideia da comuna livre, abre-lhe o caminho rumo a esta evolução da qual sentimos a aproximação, e cujo o nome será revolução social.
     A desordem — o que eles denominam desordem são é pocas as quais gerações inteiras mantem uma luta incessante e sacrificam-se para preparar uma existência melhor para a humanidade, livrando-a das servidões do passado. São as épocas durante as quais o gênio popular toma seu livre impulso e dá, em alguns anos, passos gigantescos, sem os quais o homem teria permanecido no estado de escravidão antiga, de ser rastejantes, aviltado na miséria.
     A desordem é a eclosão das mais belas paixões e das maiores dedicações, é a epopéia do supremo amor pela humanidade!

Livro: ELEITOR, ESCUTA / A PODRIDÃO PARLAMENTAR
Autor: Sebastien Faure
Editora: Instituto de Estudos Libertários
Paginas: 38 à 42

VARLAN TCHERKESOFF

     Varlan Tcherkesoff descendia de uma antiga familia nobre da Geórgia. Ainda jovem, abandonou o lar paterno, em direção a Moscou, onde frequentou um instituto ginasial. Seu verdadeiro nome era Tcherkeskilli, que somente russificou no estrangeiro. Tcherkesoff conheceu, desde o alvorecer de sua juventude, o movimento revolucionário. O jovem aluno do ginásio residia em Moscou com estudantes mais adiantados, que lhe devotavam grande simpatia, em vista em sua presença conversavam sem reservas sobre todos os assuntos secretos.
     Foi assim que Tcherkesoff veio conhecer os problemas que então pretendiam a atenção da juventude socialista e revolucionaria.
     Era o período em que Tcherkesoff exercia poderosa influência sobre a juventude e quando o movimento  revolucionário havia dado origem à organização secreta "Terra e Liberdade".
     Tcherkesoff era o membro mais novo desse círculo.
     Depois da prisão de Tchernichevsky, em julho de 1863, a polícia de Alexandre 2.°, cujo suposto liberalismo despertara entre o povo algumas esperança, inclinou-se francamente para o racionalismo.
     A consequência desse fato foi, naturalmente, o progressivo desenvolvimento, nas agremiações da mocidade socialista, da convicção segundo o qual se tornava necessária uma solução violenta das grandes questões que a todos inquietavam.
     Tal convicção era fortalecida pela ideia de que as perspectivas de reformas governamentais em sentido liberal não passavam de meras ilusões.
     Dentre as agremiações de estudos moscovitas surgiu uma que começou a propagar a luta contra o tsarismo por meios violentos. Entre outras coisas, tratou da criação de uma imprensa clandestina e da liberdade de Tchernichevsky. Tcherkesoff fazia parte dessa agremiação. A ela também pertencia o conhecido revolucionário Karakosoff, que no ano de 1866 atentou contra o tsar Alexandre 2.°, sendo, em virtude desse gesto, sacrificado no cadafalso.
     Depois do atentado levado a feito por Karakosoff, a reação levantou novamente a cabeça.
     Antes a nova situação, os dirigentes tomaram novas medidas. Desde logo, todos os funcionários suspeitos de liberalismo, mesmos os maia moderados, foram detidos de seus cargos e substituídos por indivíduos conhecidos como reacionários.
     "O Contemporâneo", fora que teve em Tchernichevsky o seu colaborador mais notável, foi suprindo pelo governo. O estado de coisas em geral cada vez mais e mais retrogradava aos tenebrosos tempos de Alexandre 1.°.
     Tais medidas, porem, não aplacaram a revolta da juventude e de outras camadas da população. Os estudantes principalmente, estavam indignados contra os dirigentes, porque estes os importunavam constantemente com toda sorte de maquinações.
     Resolveram, por isso, exigir das " autoridades competentes":
     1. O direito de fundarem uma caixa de socorro para os estudantes pobres.
     2. O direito de se reunirem nas aulas para a discussão de assuntos de interesse comum.
     3. O levantamento da opressão policial que sobre eles pesava.
     Os revolucionários, entre os quais se encontrava Tcherkesoff, tentaram levar o movimento estudantil para o terreno politico.
     Seus esforços nesse sentido foram eficazes, tendo a favorecê-los as próprias arbitrariedade dos órgãos governamentais.
     Entre os pioneiros dessa  agitação destacou-se o professor Sérgio Netchaef, homem extraordinariamente enérgico, que conseguiu fundar uma organização revolucionária, sobre cujos componentes exerceu assombrosa influência pessoal.
     Devido às perseguições, Netchaef viu-se forçado a refugiar-se no estrangeiro, não interrompendo, apesar disso, suas relações revolucionarias com seus companheiros.
     Na Suíça entrou em contato com Bakúnine e seu ambiente, com qual, a princípio, colaborou ativamente.
     Em setembro de 1869, Netchaef voltou à Rússia, dedicando-se, ali, com mais intensidade, à organização das forças revolucionarias, apoiado por suas relações no estrangeiro. Antes, porém, que a organização tomasse vulto, em vista da eliminação do estudante Ivanoff pelos revolucionários, a atenção do governo voltou-se para ela.
     Por esse fato, maus de trezentas pessoas foram detidas e conduzidas perante os tribunais.
     Tcherkesoff, que em questão se encontrava em  Moscou, conseguiu um passaporte para Netchaef, preparando-lhe para uma nova fuga para além fronteiras. Pouco tempo depois, caiu ele mesmo nas mãos dos esbirros, permanecendo na prisão, desde fins de 1869 até 1871, ano em que teve lugar o grande processo.
     Desterrado para Sibéria, Tcherkesoff fugiu de Tomsk e refugiou-se no estrangeiro.
     Primeiramente, estacionou, durante algum tempo, el Londres; depois, dirigiu-se a Suíça francesa, onde travou amistosas relações com James Guillaume, Kropotkine, Cafiero, Malatesta, e muitos outros expoentes do anarquismo, decidindo-se, dai por diante, à propaganda desta doutrina.
     No congresso da Federação de Jura, em 1880, colocou-se contra os coletivistas, ao lado dos que defendiam os comunismo libertário, cujo a filosofia abraçou por todo o resto de sua vida.
     Durante a sua permanência em Genebra, Tcherkesoff fez prolongadas viagens à França, onde por esse tempo começava a desenvolver-se o movimento libertário.
     Durante a sua permanência em Genebra, Tcherkesoff fez pro-se na contingência de sair da França, encaminhando-se pouco depois, para o Oriente. Desde 1883 até 1892, percorreu sucessivamente a Rumânia, a Turquia, a Ásia Menor, preocupando-se, desde estes países, em fomentar a propaganda subversiva em sua região natal. Durante a sua estadia no Oriente, Vistou uma ou duas vezes a Geórgia, para estabelecer ali relações secretas com os revolucionários.
     Em 1892 Tcherkesoff voltou à Europa Ocidental, habituando, com alguns intervalos, sempre em Londres. Entre os emigrantes russos da parte oriental dessa metrópole, era uma das personalidades mais conhecidas, e um dos mais atacados propagandistas do anarquismo. Tcherkesoff acompanhou com particular atenção o movimento do nascente sindicalismo revolucionário francês, sobre o qual escreveu no jornal "Freedom", de Londres. Ele esperava desse movimento uma reanimação de idéias da ala revolucionaria da primeira internacional.
     Como escritor, Tcherkesoff revelou-se brilhantemente, colaborando principalmente nos jornais " Freedom", "Temps Nouveaux", " Tieb e Volta", porém seus artigos foram traduzidos na imprensa libertária de quase todos os países. As suas duas series de artigos publicados sob as respectivas epígrafes, "Pages d'histoire socializt" e no "Neues Lebem", foram mais tarde publicados em forma ampliada e traduzidos em diversos idiomas.
     Mesmo quando não se pudessem aceitar todas as conclusões das obras de Tcherkesoff, é forçoso reconhecer ter ele demonstrado com clareza que muitas idéias que haviam sido consideradas como férreos elementos do marxismo, como por exemplo a "concepção materialista da historia", a " teoria da mais-valia", etc., eram já conhecidas dos socialistas da França e da Inglaterra muito antes de serem Marx e Engels influenciados na redação de suas teorias por outros socialistas, como Considerant, Proudhon, Thompson, Buret, e outros.
     Essas provas valeram-lhe muitos ataques de Plekanof, Kautzky, e outros coriféus, do marxismo, porém teve a satisfação de ver o conhecido marxista italiano Labriola confirmar, publicamente, que havia chegado, depois da leitura do escrito de Victor Considérant, "Princípios do Socialismo" (manifesto da democracia do século 19), à convicção de que Marx e Engels não desenvolveram um só pensamento original no seu conhecido "Manifesto Comunista".
     Pessoalmente, Tcherkesoff era um caráter completamente honesto e um homem extraordinariamente afável. Todos os que entraram em contacto em esse homem modesto, sempre em condições materiais precárias, só terão nesse particular uma apreciação unânime.
     Quando, em 1905, explodiu a primeira revolução na Rússia, Tcherkesoff correu para a sua pátria, porém a reação vencedora apagou rapidamente todas as esperanças, e Tcherkesoff teve a felicidade de fugir a tempo em direção ao estrangeiro.
     Pouco depois de estalar, em 1917, a revolução russa, Tcherkesoff voltou à Rússia. Atuou principalmente em sua terra natal, na Geórgia, mas teve que fugir novamente do país depois da contra-revolucão bolchevista. O resto de sua agitada vida passou-o em Londres, que, com o decorrer dos anos, para ele se tornou uma segunda pátria.

Rudolf Rocker

Livro: Erros e contradições do Marxismo
Autor: Varlan Tcherkesoff
Editora: Mundo Livre
Paginas: 27 à 31

É preciso escandalizar¹

     Todas as seitas, sociedade ou partidos, todos os homens, classes ou coletividades que não estiveram o atrevimento de escandalizar o mundo com as suas idéias, os seus métodos e os seus atos, forneceram sem que os menos duradouro, no curso das idades.
     Quando dizemos escândalo queremos precisamente exprimir admiração ou espanto que causam os princípios ou práticas hostis ao ambiente estabelecido.
     Se os cristãos não houvessem escandalizados o mundo com as loucuras do Nazareno - seu símbolo - com o terror da Providências, com a infinita bondade, justiça e sabedoria do Padre Eterno, com as indescritíveis delicias dos céus e os espantosos martírios do limbo, do purgatório e do inferno, ninguém lhe teria feito caso, como assim mesmo não o teria feito se não tivessem impressionado os povos com a sua audácia, abnegação e heroísmo, e secos mais dedicados defensores não se tivessem, como o seu "chefe", coroado com a auréola do martírio.
     As concepções e a audácia de Sócrates, e a cicuta que foi obrigado a beber, revolucionaram a mentalidade humana na época.
     Galileu destruiu rapidamente o sofisma da teoria da imobilidade da terra com a famosa frase: " eppur si muove!"².
     Se o luteranismo e o calvinismo produziram a reforma e facilitaram o surgimento do positivismo, foi porque escandalizaram o mundo cristão, levando a duvida aos cérebros, submetendo a Bíblia ao escalpelo da critica.
     Por sua vez o positivismo triunfou espantando todos os crentes com a sua filosofia e as arrojadas concepções eminentemente materialistas.
     O atrevimento de homens como Babeuf, Herbert e Otávio Mirabeau, e a valentia de um povo heróico proclamando a liberdade, igualdade e fraternidade.
     Pensamos um momento sobre a audácia dos trabalhadores de Paris que, apesar de estarem às energias populares esgotadas pela guerra franco-prussiana , tiverem a coragem de implantar a Comuna numa época em que apenas despontavam as idéias socialistas e anarquistas; pensemos no seu sacrifício realizado na semana trágica contra as tropas de Thiers, e teremos uma idéia de razão da universalização rápida dos novos princípios de regeneração social.
     As forcas de Chicago descreveram sobre as gerações novas a famosa frase de Spies:
     – Saúde oh! Tempos em que o nosso silêncio será mais poderoso que  as nossas vozes que hoje sufocada com a morte!
     Quem não foi tomado de assombro pela temerária revolta dos heróicos marujos do couraçado Kinazpotkine? Que de estímulos não criou o arrojo desses valentes?
     Hoje, todas as bocas limpas repetem o memorável exclamação de Ferrer: – VIVA LA ESCULA MODERNA!
     As transformações sociais, politicas, econômicas, morais e filosóficas, as revoluções, ascensões dos plebeus, dos escravos, produzem-se pelo escândalo.
     O mundo marcha à força de escândalos, e a humanidade só concebe uma idéia ou um ato depois de ter-se escandalizado, depois de ter sido a sua atenção atraída para estas idéias e atos com a admiração e a impressão.
     Quando se propaga seja o que for, com desvios ou roupagens, mais ou menos enigmáticas, quando se emprega uma fraseologia escolhida para não assustar ou para não escandalizar, o auditório ouve filípicas como quem ouve chover.
     E nós, se não queremos gastar a cachola nem os pulmões inutilmente, Têmis que propagar as nossas idéias sem prudência alguma, sem palavras com sentido figurado.
     É preciso ter a sinceridade do camponês: pão é pão e vinho é vinho.
     Tratemos, por todos os meios, de escandalizar a todo o mundo, em todo o momento e lugar.
     Gritemos bem alto, com toda a força, os nossos princípios, as nossas doutrinas; e se alguém fugir de nós devemos correr atrás dele até alcança-lo, e continuar a gritar, certos que não podemos perderemos tempo, porque, quem foge é porque fez caso das nossas erengas e foi impressionado por elas. Os irredentos, os que não podem assimilar os nossos sentimentos, ficam muito tranquilos, porque não compreende patavina, ou estão pensando em coisas que não tem nada com o que nós esforçarmos em fazer-lhe sentir
     Escandalizemo a todos.
     Quando tivermos escandalizados o mundo, ele será nosso.
     Quando o anarquismo for espalhado por toda a terra a Anarquia terá triunfado.

Lisboa, 1913

¹ Carvalho, Florentino de. Germinal! Ano 01 – N°. 18 – 20.07.1913

² "mas se move"

Livro: Anarquismo e Anarquia
Autor: Florentino de Carvalho
Editora: Imprensa Marginal
Pagina: 59 à 61

domingo, 21 de dezembro de 2014

Alguém acredita na constituição?

     Olha só esse texto: "Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido".

     - O que? Corta essa, meu. Estão brincando com nós ou tão me tirando? - disse Roberto, o boêmio mais lúcido que já se viu no país, mostrando o texto do primeiro capitulo do livreto Constituição da República Federativa do Brasil..

     - Você não esta entendendo rapaz, o que eles querem é que os trouxas acreditem nessa bobagem - retruca Eduardo, um anarquista inveterado.

     Frequentador assíduo do bar, Roberto conhecia quase todos que ali costumava aparecer duas ou três vezes por semana. Com um sorriso permanente no rosto conquistava de pronto a simpatia das pessoas.

     O encontro dos dois se deu por casualidade num bar da Rua Augusta, local conhecido e frequentado pela mais variada espécie de homo sapiens paulista que se possa imaginar.

     - Mas você acha que tem alguém que engula essa de que o povo é quem manda, ou quem tem o poder?

     - Bem, aí concordo com você, mas também já parou para pensar que nem por um por cento do brasileiro abriu o livro para ler a Constituição do país?

     - ah é? Então foi feita mesmo pra ficar só no papel e ainda é chamada se Carta Magna... Só se for Carta manha... - respondeu Roberto, depois de virar o copo para mais um gole da caipirinha que, diga-se de passagem, considera a maior invenção bda humanidade.

     - Você é mesmo engraçado. Quem é que vai perder tempo lendo essa historia de ficção, que não da para levar a sério - disse o anarquista Eduardo, coerente com a sua posição ideológica.

     Roberto não perdendo o embalo, disse:

     - E aquela que garante:

    "Todos são iguais perante a lei...?".

     - Imagina, eu igual ao Maluf? Tu tá é louco...

     - Pois é, mais eu igual ao Oscar Niemayer, até que me deixaria muito orgulhoso! - respondeu com brincadeira e ironia o Eduardo.

     - É? Mas quem disse que isso é verdade, meu...?

     E a conversa foi longe, iniciando um hábito popularmente conhecido como o de jogar conversa fora que passou a ocorrer com muita frequência, e com isso veio se desenvolver pontualmente aos sábados, domingos e esporadicamente outros dias da semana, sem preconceitos.

     O destino às vezes nos fazem surpresas inimagináveis, pensava Eduardo quando fazia seu caminho de volta para casa. Criamos às vezes amizades e relacionamentos absolutamente imprevisíveis. Pois é isso, exatamente o que está acontecendo com esse individuo que acabo se conhecer...

Livro: conversa de botequim
Autor: Valentim de Souza
Editora: giostri
Pagina: 11 à 13

No Silêncio das Selvas (Domingos Braz)

     Na negra solidão deste degredo infindo,
     Neste recanto agreste onde a malaria impera
     Numa angústia ferina a atroz que desespera,
     A vida a pouco e pouco se vai, além sumindo,
     Em meio da mata brava a razão prolifera,
     Medra, se concretiza e, alegre vai florindo
     O Vergel do futuro, esperançoso e lindo
     C'os frutos da verdade acena a quem espera.
     Bondoso e revoltado, o coração ferido
     Prosseguirá a luta heróica e destemida
     Abrandando altivamente: - Abaixo a tirania!
     Além já se divisa o sol da redenção
     Que um passo marcará na humana evolução
     É o sol da liberdade, a sublime Anarquia.

Oiapoque, 1925. (In, 54, p. 240-1)

Livro: Moral Publica & Martírio Privado
Autor: Alexandre Samis
Editora: Achiamé
Página: 9

Fuga e destino dos deportados após a Clevelândia

     A maioria dos anarquistas conseguiu fugir da colonia penal, mas nem todos sobreviveram à fuga, morrendo em péssimas condições de saúde. Domingos Passos conseguiu chegar em São Paulo e participou ainda de muitas assembléias e comícios em favor de Sacco e Vanzetti, desaparecendo depois, provavelmente vitima da policia politica que ainda funcionava no governo de Washington Luís.
     As cartas que chegavam à redação de A Plebe e que foram publicadas, mostravam que os militantes anarquistas evadiram-se da colônia penal em fins de 1925, permanecendo alguns meses em Belém ou Saint George até conseguirem recursos, que eram obtidos muitas vezes, por subcrições de companheiros do Sul ou mesmo à custa de trabalho semi- escravo na Guiana Francesa. É importante ressaltar que a fuga dos militantes não era  seguida de ausência nas atividades do cotidiano  revolucionário, eles procuravam suas bases e passavam a atuar na clandestinidade, como bem atesta a vida de Domingos Passos. Mesmo com o fim do estado de sitio, observamos o cerco ainda muito forte da polícia sobre os "desviantes" do padrão social estabelecido. O desaparecimento de Domingos Passos, já em 1927, atesta a manutenção da repressão aos ativistas.
     Importante mostrar que, após o mandato de Bernardes, os jornais mais aliviados da mordaça a que ficaram submetidos, promoveram uma série de reportagens, nas primeiras páginas, sobre o episódio de deportações.
     Os jornais O Globo, A Manhã e outros publicaram durante semanas, matérias bombásticas sobre a "tragédia macabra do Oiapoque" (A Manhã, 08/01/1927), que ficaram perdidas na memória dos que se aprofundaram na luta antibernardista. A historia de Clevelândia foi  praticamente ignorada pelos manuais, acadêmicos ou não, talvez por não representar um triunfalismo nos moldes da Coluna Prestes. Ou mesmo porque para lá foram mandados os "decadentes" anarquistas que, segundo as premissas do marxismo, já tinham esgotado suas táticas "artesanais" na sociedade capitalista brasileira, dando lugar à militância "conseqüente" dos comunistas, que passaram a reconhecer o Estado como interlocutor possível para sua revolução institucional partidária.
     É interessante notar que enquanto militantes anarquistas, como José Oiticica¹, foram presos e tiveram seus habeas-corpus negados em ultima instância no Supremo Tribunal Federal, o Partido do Comunista, embora ilegal no governo Bernardes, recebeu a concessão do júri supremo, para continuar suas reuniões. Fato suspeito, num momento de intolerância com os movimentos sociais no Brasil.

¹. Em 1925 o anarquista José Oiticica é preso e fica respectivamente, detido na Ilha Rasa, Ilha das Flores e na de Bom Jesus (In 45, p. 83).

Livro: Moral Pública & Martírio Privado
Autor: Alexandre Samis
Editora: Achiamé
Página: 58 á 59

sábado, 13 de dezembro de 2014

Se informar as crianças, elas largaria os brinquedos e pegariam os molotov's

     O que lemos, ouvimos, assistimos estimula o nosso ser, não necessariamente a pensar e a questionar. Como dizia Freud, o caráter de uma pessoa é definida pelos pais até os seus cinco anos de idade. Mas como esta o tempo de nossas crianças atualmente? Se observarmos as nossas referencias, veremos a todo tempo colocarem crianças para assistir desenhos como Pica-Pau, um personagem traiçoeiro, mafioso, ganancioso ou então Chaves, que ensina a criança ser burra, porem engraçada, e etc.
     Pois na verdade querem transformar crianças em adultos de mão de obra barata, pois sabem que é na juventude consciênte e informada que esta a boa parte das revoltas populares, por isso a todo tempo as escolas, a televisão, o Estado e até mesmo os pais para fugir de uma educação combativa e digna, usam da inocência da criança para ter uma vida "tranquila" sem nada de revoltas, mantendo a "ordem" através do ensino de consumo e da ilusão de ser feliz, tirando a bola para evitar gritarias e janelas do vizinhos quebradas high-tech, isolando as crianças umas das outras.
     A educação para a maioria das população esta como deveria estar péssima, mais para a "ordem" do estado e do capital, crianças isoladas e ignorantes com um celular na mão se entregando cegamente a tecnologia futilizada é uma situação desejável. Se elas fossem informadas conscientemente sobre as suas realidades e entendessem que são apenas produtos do capital estariam todas brincando de "manifestação" com coquetel molotov.

Cleber Aleixo

Redação do Enem de 2014, tema "Publicidade infantil no Brasil"

Amar

Dizem que o amor é uma conquista.
Digo - expressamente! - que se é assim,
dessa forma, não sei amar.

Não quero para mim.
Não possuo o intento de dizer "é meu".
Não! Não é possível que a beleza das flores,
que o voar das andorinhas,
Que o vento frio que anima meu peito,
Sejam redutíveis a palma de minha mão.

Simplesmente, não acredito
que opostos, podem ser iguais,
se resumiam a uma adição sem vida
do querer-para-si do verbo conquistar.

De antemão, resumo que o amor
seja uma conquistar passo a afirmar
com a voz altissonante, como a aurora do dia:
amar não é conquistar.
Amar... e realizar-se com o outro!

Autor: Desconhecido

Extraido:
Livro: De amor e anarquia relações libertárias ontem e hoje
Pagina: 53
Editora: Deriva