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segunda-feira, 26 de junho de 2017

REALISMO MORAL E REALISMO SOCIAL ( Parte 1)

1.- MORAL E REALISMO MORAL
     Expliquei na teoria, que tentei apresentar, do progresso, como o progresso tinha o seu princípio na justiça, como na justiça como em qualquer outro desenvolvimento politico, econômico, literário, filosófico, se tornaria subversivo e dissolvente, e ainda, como ideal nos fôra dado para nos levar a justiça; mais expliquei como, se este mesmo ideal, em vez de servir auxiliar e de instrumento de direito, fosse, ele próprio, tomado como regra e objetivo da vida, haveria imediatamente, para a sociedade, decadência e morte. Numa palavra: à justiça, subordinei o ideal. (Pornocratie, cap. V)
     A moral é o conjunto das normas que têm como objetivo a perseverança na justiça. É noutros termos, o sistema de justificação, a arte de o homem se tornar santo e puro pelas obras, ou seja, ainda é sempre: o progresso ... (Philos. du Progrês, 1.º estudo.)
     Não são os homens que governam as sociedades, mas os princípios; na falta de princípios, são as situações.
     A França perdeu os seus costumes.
     Pelo cepticismo, o atrativo puramente moral do casamento, da geração, da família, o atrativo do trabalho e da cidade, uma vez perdidos, dá-se a dissolução do ser social... Ciência e consciência da justiça... eis o que falta.

A. CIÊNCIA E CONSCIÊNCIA DA JUSTIÇA
     Para formar uma família, para que o homem e a mulher encontre alegria e a calma a que aspiram, sem quais aproximados apenas pelo desejo, eles  nunca estarão sempre incompletamente unidos, é precisa uma fé conjugal, entendendo eu por isso uma ideia da sua dignidade mútua...
     Do mesmo modo para formar uma sociedade, para dar aos interesses das pessoas e das famílias a segurança - que é a sua primeira necessidade, sem a qual o trabalho não se aceita, a troca dos produtos e dos valores se torna uma burla, a riqueza uma cilada para quem a possui - é preciso aquilo que eu chamaria uma fé jurídica...
     Do mesmo modo ainda, para formar um Estado, para conferir ao poder adesão e estabilidade, é precisa um fé política, sem a qual os cidadões, entregues às puras atrações do individualismo, não sabiam, seja o que for fizessem, ser outra coisa que não fosse um agregado de exigências incoerentes e repulsivas... É pois preciso que a Justiça, nome pelo qual designamos está parte da moral que caracteriza o indivíduo em sociedade, para se tornar eficaz, seja mais uma ideia, é preciso que seja ao mesmo tempo uma realidade. É preciso que ela aja não só como noção da razão, relação econômica, fórmula de ordem, mas ainda como força da alma, forma dá vontade, energia interior, instinto social, análogo para o homem aquele instinto comunista que observamos nas abelhas. Há razões para se pensar que, se a Justiça permaneceu até hoje impotente, é porque, como faculdade, força motriz, a menosprezamos completamente, porque desprezamos a sua cultura, porque ela não caminhou, no seu desenvolvimento, ao passo da inteligência; enfim, porque a tomamos por uma fantasia da nossa imaginação ou impressão misteriosa duma vontade estranha. É preciso pois que ela apareça finalmente como o princípio, o meio e o fim, a explicação e a sanção do nosso destino. (Justice, Philips. Popular.)
B. A moral, realidade social

     Imanência e realidade da justiça na humanidade, tal é o grande ensinamento... A moral... Expressão da liberdade e da dignidade humana, existe por si própria; ela não depende de nenhum princípio; domina toda a doutrina, toda a teoria...
     É no comando da vossas ideias e até a prova dá vossa certeza...
     A justiça e em vós ao mesmo tempo realidade é pensamento soberano... ( Lá Guerre et la Paix, concl. geral.)
     A moral-e a sua correlativa, a estética — é coisa Sui generis: não é um produto do pensamento puro ou da razão, como a teologia... É uma revelação que a sociedade, o coletivo, faz ao homem, ao indivíduo. — Tornar-se Impossível deduzir a moral, quer da higiene, quer da economia, quer da metafísica ou teodiceia, como o fizeram, sucessivamente, os materialistas, os utilitaristas, os cristãos dogmáticos, tais como Bossuet, etc. A moral resulta doutra coisa. Esta outra coisa, a que uns chamam consciência, outros razão prática, etc., é, para mim, a essência social, o ser coletivo que nos contém e que, pela sua influência, pelas suas revelações completa a constituição da nossa alma...
     Não comentam essa grande imoralidade de fazer da moral uma coisa noológica. Seriam forçados, mais tarde ou mais cedo, a reconhecer que essa pretensa moral não tem, nem o princípio, nem o valor, nem o objetivo, nem função. (Lettre à Cournot, 31 de Outubro de 1853.)

C. Estética e moral social

     
Aquilo que a moral revela à consciência sob a forma de normas, a estética, tem por objetivo mostrá-la aos sentidos sob a forma de imagens... São dois aspectos da nossa educação, ao mesmo tempo, sensíveis e intelectuais, que se tocam na consciência e que só diferem no órgão ou na  faculdade que lhes serve de veículo. Aperfeiçoar-se pela justiça... desenvolvendo-a na sua verdade integra, tal é o objetivo indicado ao homem pela moral. Aperfeiçoar-se pela Arte, depurando incessantemente, à semelhança da nossa alma, as formas que nos rodeiam, tal é o objetictivo da estética. (Philos. du Prog., 2º lettre.)
     O que é arte e qual é o seu objetivo social?
     Uma representação idealista da natureza e de nós próprios, com fim ao aperfeiçoamento físico e moral  da nossa espécie...(Du Principe de I'Art, cap. XII.)
     O objetivo da Arte é ensinar-nos a juntar o agradavel ao util, em todas as coisas da nossa existência, e através disso, contribuir para a nossa dignidade.(Du Principe de I'Art, cap. XXIII.)
     A Arte, isto é, a procura do belo, a perfeição do verdadeiro no homem, na mulher e nos filhos; nas ideias, discursos, ações; nos produtos: tal é a ultima evolução do trabalhador... A estética e, acima da estética, a moral: eis a pedra angular do edifício economico. (Contr. Êcon., Cap XIII.)
     A Arte, como a literatura, é a expressão da sociedade, e quando não existe o seu aperfeiçoamento, existe a sua ruína. (Pr. Art., cap. X.) A Arte deve participar no movimento da sociedade, provoca-lo e seguilo. Foi por ter menosprezado este destino da Arte, por ter reduzido somente a expressão deuma realidade quimérica, que a Grécia perdeu a compensação das coisas e o captro das ideias. (Philos. du Prog., 2ª lettre.)
     É possível uma estética, uma teoria da arte?
     -A Arte é a própria liberdade, restabelecendo à sua vontade, e em vertude da sua própria glória, a fenomenalidade das coisas, executando variações sobre o tema concreto da natureza.
     -A Arte, assim como a liberdade, tem pois como materia o homem e as coisas; como objetivo, reproduzi-lo ultrapassando-os; como fim ultimo, a justiça.
     -Para decidir da beleza das coisas - noutros termos: para as idealizar - é preciso conhecer as relações entre as coisas... o ideal é dado pelo real; ele tem a sua base, a sua causa, a sua força de desenvolvimento real, no real.
     -A Arte é solidária com a ciência e a justiça: eleva-se com elas e declina ao mesmo tempo que elas. (Justice, Prog.et Décadence.)

D. Sanção moral e solidariedade social

     Em virtude da solidariedade moral que une os homens, é raro que um acto de prevaricação seja completamente isolado e que o prevaricador não tenha por cúmplice, direto ao indireto, a sociedade e as suas instituições. Somos todos, uns mais outros menos, culpados uns para com os outros, e o que diz Job não é verdadeiro: pecador perante Deus, estou inocente perante os homens. Nesta comunidade consciência, sendo a Justiça recíproca, é-o também a sanção; a reparação deve comportar-se do mesmo modo. Quais são as causas, os pretextos, se tal quisermos, que arrastaram o acusado? que injustiça, que tolerância, que favor o provocou? que mau exemplo lhe foi dado? que omissão, que contradição do legislador atormentou a sua alma? De que ofensas,  - seja parte da sociedade, seja da parte dos particulares - Se lamenta ele? quais as vantagens, dependentes da vontade pública, de que não goza?... Eis o que o Juiz de instrução deve investigar, com tanto cuidado como as próprias circunstâncias do crime ou delito...(Justice, Sanction morale.)

Extraído:

Livro: A Nova Sociedade
Autor: Proudhon
Editora: Rés (colecção Substância)
Paginas: 257 á 262

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